3.12.08

Space trilogy



Títulos: Out of the Silent Planet (1937); Perelandra (1943); That Hideous Strength (1947)

Autor: C. S. Lewis

Numa noite de conversa em Oxford, em 1931, Tolkien revelava a C. S. Lewis os segredos da ‘mythopoeia’: tudo o que o homem faz – os seus pensamentos, as suas criações – são originários de Deus. Logo, por mais fantásticos e extraordinários que sejam os mundos inventados, há sempre neles uma verdade divina, inerente a todo o acto de criação.

In making a myth, in practising ‘mythopoeia’ and peopling the world with elves and dragons and goblins, a storyteller, or ‘sub-creator’ […] is actually fulfilling God’s purpose, and reflecting a splintered fragment of the true light. Pagan myths are therefore never just ‘lies’: there is always something of the truth in them.

Nesse mesmo ano, C. S. Lewis convertia-se ao cristianismo. Em 1937 publicava Out of the Silent Planet, o primeiro de três livros a que se dá o nome de “Space trilogy”. Neles, Lewis cria uma cosmogonia em que os mitos pagãos são entendidos à luz da religião cristã. Através do uso da dialéctica socrática, e de uma certa tendência para a retórica chestertoniana, o escritor utiliza o herói, Elwin Ransom como uma espécie de megafone dos seus dilemas e convicções. Dito desta maneira, parecerá que Ransom é um ser desprovido de personalidade, um mero disfarce onde se esconde Lewis. Nada mais falso. É claro que o filólogo, professor em Cambridge, amante de passeatas, ex-combatente da I Guerra Mundial, é o alter-ego de Lewis; no entanto, o interesse e a empatia que o leitor estabelece com esta personagem é tão forte que ele surge aos nossos olhos como uma pessoa de carne e osso, um verdadeiro companheiro de aventuras e não somente um nome num pedaço de papel.

Por mais interessante que os livros sejam, e são, como veículos para entender as convicções e a personalidade de Lewis, se fossem só isso, eu não estaria agora a escrever este texto. Mais importante de tudo é o cenário que o escritor cria para transmitir a mensagem. E, neste caso, que cenário! Se quem, como é o meu caso, procura livros fantásticos em busca de um sentimento de encantamento perante o maravilhoso, tem nestes livros um prato cheio. A originalidade da imaginação e a capacidade de evocação, de tornar real o cenário mais estranho, são as características maiores de Lewis como escritor. Posso por isso dizer que não li sobre Malacandra e Perelandra, estive em Malacandra e Perelandra. Subi a penhascos de gelo, nadei em águas douradas, embrenhei-me por florestas, perdi-me em cavernas, viajei pelas estrelas, conheci os enigmáticos huorns, vi seres marinhos semelhantes a sereias e golfinhos, combati o inimigo, chorei a morte de um amigo. Estes livros não são livros, são pedaços de uma experiência real. E este é o maior elogio que se pode fazer a um autor.

Out of the Silent Planet inicia-se sob o signo de H. G. Wells. Neste aspecto o livro é peculiar: é uma resposta ao cientismo de Wells e, ao mesmo tempo, uma homenagem a esse grande escritor de pesadelos, mais concretamente aos romances The First Men on the Moon e A Ilha do Dr. Moreau.

Out of the Silent Planet é, acima de tudo, um livro de descoberta; o leitor acompanha Ransom numa viagem espacial até ao planeta Malacandra, onde contacta com espécies bizarras e percorre paisagens estranhas. Tudo neste livro – sabores, cores, sons, odores – é descrito com extraordinária nitidez de maneira a proporcionar no leitor a sensação de estar lá. As descrições de Lewis têm o poder de entrar na alma e evocar imagens sublimes. De tal maneira, que Malacandra e os seus habitantes permanecem connosco muito depois do fim da leitura.

Se Out of the Silent Planet serve como introdução à cosmogonia inventada por Lewis, Perelandra é o clímax. É no segundo tomo da trilogia que a retórica de Lewis, e uma certa propensão para a doutrinação, são mais evidentes. Perelandra é um planeta muito diferente de Malacandra, no entanto Lewis descreve-o com a mesma força e poder evocativo. Mas para mim, o mais memorável do livro, para além do planeta, é a personagem conhecida como ‘Un-man’, o Inimigo. Esta criatura é da mesma massa de que se fazem os pesadelos. Uma criação digna do próprio Wells. Tenho dificuldade em encontrar palavras que descrevam com verosimilhança a intensidade do nojo que sentimos quando pela primeira vez nos deparamos com este ser. Prefiro deixar a palavra ao próprio Lewis:

The thing sat down close to the Lady's head on the far side of her from Ransom. If you could call it sitting down. The body did not reach its squatting position by the normal movements of a man: it was more as if some external force manoeuvred it into the right position and then let it drop. It was impossible to point to any particular motion which was definitely non-human. Ransom had the sense of watching an imitation of living motions which had been very well studied and was technically correct: but somehow it lacked the master touch. And he was chilled with an inarticulate, night-nursery horror of the thing he had to deal with - the managed corpse, the bogey, the Un-man.

Nunca até agora li um combate tão intenso como entre Ransom e o Un-man. O leitor chega ao fim exausto, como se ele próprio tivesse também entrado na luta. Como representante do mal, poucas criações se comparam ao Un-man. Nem o próprio Diabo, descrito por Dante na Divina Comédia, um ser hediondo de três cabeças, tem o poder de repugnar tanto o leitor.

That Hideous Strength é mais convencional no seu cenário e menos bem conseguido enquanto romance. De regresso à Terra, mais concretamente a Inglaterra, as atenções do leitor dividem-se entre as maquinações das Forças do Mal e a resposta das Forças do Bem. Pouco posso dizer em relação a este livro, a não ser que, à parte uma ou duas situações de pesadelo, nomeadamente aquelas em que Lewis descreve o funcionamento de uma organização hierárquica, com os seus grupinhos, cedências, regras e segredos, That Hideous Strength não tem, infelizmente, muito que se recomende. Um final decepcionante para a trilogia.

Concluindo, Out of the Silent Planet é um livro quase perfeito, equilibrado em termos de estrutura, personagens, situações, atmosferas. Sempre interessante, fascinante e emotivo. Perelandra não é tão bom como o anterior mas merece, sem dúvida nenhuma, ser lido. Os pontos altos são as descrições do planeta e o combate entre Ransom e o Un-man. Ambas as obras estão muitíssimo bem escritas e a sua leitura será seguramente um prazer. That Hideous Strength é o mais fraco dos três. Como só um fio ténue o liga aos outros dois livros, e como Perelandra tem um final satisfatoriamente conclusivo, penso que não estou a prejudicar ninguém se aconselhar a que se dispense a leitura do último livro da trilogia.

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