Fui ontem ver o "Mercador de Veneza", encenado por Ricardo Pais, com António Durães como Shylock.
O que dizer desta encenação? Ainda estou perplexa pela opção de dividir a peça em dois, concentrando na primeira parte toda a acção em Veneza e deixando para a segunda a acção de Belmonte. Não sei qual a sensação que tiveram as pessoas que não conheciam a peça mas para mim, a única coisa que Ricardo Pais conseguiu fazer foi destruir completamente a peça. Quer dizer, se Shakespeare estruturou a peça alternando Veneza com Belmonte, lá teria as suas razões. O resultado da opção de Ricardo Pais faz com que o clímax da peça (a cena do julgamento) passe para o meio, destruindo com isso qualquer crescendo de tensão uma vez que a 2ª parte passa a ser um inútil arrastar até ao fim; e diminuindo, e muito, a importância de Shylock. Ora, se há uma coisa certa na peça, é que Shylock é a grande personagem. E neste caso, não temos o judeu durante a 2ª parte toda!
Conclusão: toda a 1ª parte vale a pena ser vista. Aliás, descobri mais uma coisa, a peça aguenta-se perfeitamente bem sem Belmonte. Fica uma mini-peça, centrada entre a questão António e Shylock, sem outras distracções, plena de tensão dramática. A 2ª parte é um desastre. Belmonte, sem o contraponto de Veneza, não se aguenta sozinha. Ainda estou para saber o que se terá passado pela cabeça de Ricardo Pais para fazer semelhante disparate. As razões que ele aponta, no caderno que acompanha a peça, não me convenceram.
Esta opção pela divisão ainda é mais problemática por causa dos actores. António Durães é óptimo como Shylock. Só por ele vale a pena ver a peça. O problema são os outros. A actriz que faz de Pórcia, não estando mal, não aguenta a peça na 2ª parte, e nunca faz o contraponto ao judeu. A opção da encenação de a colocar num plano diferente dos outros intervenientes, durante a cena do julgamento, também não a ajuda nada, diminuindo-lhe a presença dramática. Isto para quem viu a peça do 2º balcão, como foi o meu caso. O actor que faz de António não é mau, mas o que faz que Bassânio é muito fraco. E os outros são indiferentes. Por aqui se vê que a 2ª parte, ainda por cima sem bons actores, é um pouco soporífera, to say the least.
Esta encenação vem, pelo menos, demonstrar uma coisa: no Shylock, no play.
2 comentários:
Olá Ana!
Estão todos bem em casa?
Bom Ano com saúde e bos disposição!
Agora sobre o teu comentário digo que estou de acordo, mesmo não tendo visto a peça. Mas refere-se a uma questão que me interessa muito. Qual a liberdade do encenador? Qual o respeito devido ao autor?
Até breve.
Olá MC,
Só agora vi o comentário.
Já vem um pouco tarde mas...
Bom Ano!
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